Sessão Inaugural

21 de Setembro, 18h30
Conferência "Artes, Ciências, Tecnologias"
/ round-table "Arts, Sciences, Technologies"
José Félix Costa, Helena Barbas, Leonel Moura, Pavel Smetana

A interdisciplinaridade constitui-se como princípio básico de reflexão para a criação artística contemporânea, cuja identidade prospera no hibridismo e cuja autoria se cruza com ideias de colectivo, colaboração e especialização. Pretende-se a discussão de aspectos relacionados com o trinómio Artes, Ciências e Tecnologia, e as transformações decorrentes da sua complexa interacção para os conceitos de obra de arte, artista-investigador e públicos. Que caminhos convergem para a construção de novos espaços poéticos com prevalência da interacção entre o humano, o digital, o processo artístico e de investigação, a fruição estética e seu impacto em ambientes sociais, locais ou alargados?

Sinopse dos temas a abordar:

Pavel Smetana
O Dicionário Oxford de Ciência define “adaptação” como “qualquer alteração na estrutura ou funcionamento de um organismo passível de o adequar melhor ao seu ambiente.” A tecnologia faz parte deste processo? Que pressões emergentes e futuras de outra adaptação nos aguardam amanhã?
Tenciono apresentar, por um lado, projectos directamente relacionados com as ciências do espaço e da vida, e, por outro, expor práticas críticas que reflictam sobre o mundo artístico contemporâneo bem como sobre a mania social das ligações em rede. Os artistas podem escolher entre a excelência técnica ou uma viragem para o interior, examinando conceitos marginalizados como os rituais e um novo tipo de primitivismo digital. Talvez não seja de admirar que o tema da adaptação tenha provocado um grande interesse dos artistas numa coisa tão frontal como a morte: buscar o espaço interior da sobrevivência pessoal, sondar o espaço além.

José Félix Costa
>Toda a arte é científica. Na medida em que o adjectivo “científica” implica o adjectivo “tecnológica”, toda a arte é tecnológica. A Pintura não pode escapar à Teoria da Cor e da Luz, a
Música à Acústica, etc.
>Se interpretarmos o instrumento como uma extensão do corpo, através do qual vemos, percepcionamos, experimentamos e registamos, então a tecnologia até chega a modificar e distorcer a linguagem da “arte antiga”.
>A arte é linguagem da Ciência, através da qual os conceitos científicos são apresentados, primeiro ao grande público, depois às minorias.
> Sejamos provocadores: a Física é (ainda) a ciência que mais intersecta as artes. Os diversos conceitos de espaço e de tempo, o conceito de espaço-tempo, as suas naturezas físicas, são
“recipientes” da segmentação do projecto artístico. Estes conceitos, de definição científica, transfigurados pela imaginação artística, pelas lucubrações da criatividade, são palco em que se estruturam as artes.
> Estudos recentes assim o demonstram: os movimentos artísticos estão ligados a “universais”, em particular determinados pela estrutura do cortex visual. Há uma neurofisiologia de Malevich e de Kadinsky e uma análise neurobiológica da arte.

Leonel Moura
A tecnologia não é, em si mesma, uma característica fundamental de uma determinada prática artística, dado que toda a arte é tecnológica. Pode sim falar-se da presença de tecnologias primitivas (pincel) ou de tecnologias avançadas (computador).
A ilustração artística de práticas ou ideias da ciência não deve ser considerada no âmbito do conceito de “intersecção da arte com a ciência”, já que remete para a “velha” função representacional da arte. Por “ilustração” entende-se tanto a de natureza formal quanto conceptual.
O carácter inovador – ou mesmo de novo paradigma –, das mais interessantes práticas de combinação entre arte e ciência, reside na realização de um desvio consciente e objectivo do conhecimento científico para a criação artística.
Através desse recurso (o saber científico) os artistas podem finalmente libertar-se total e definitivamente da representação da realidade, para se dedicarem à produção directa e objectiva de novas realidades, com particular destaque para a vida, natural ou artificial.

Helena Barbas
O modelo do artista-engenheiro encarnado por Leonardo da Vinci nunca se confinou ao Renascimento. Todos os artistas usaram o seu engenho recorrendo aos vários avanços das ciências do seu tempo, propondo inclusive hipóteses na área muito física e científica dos materiais, dos media usados para o fabrico das suas obras. No presente, a escultura usa berbequins e rebarbadoras; recorre ao alumínio, e ao nitinol – uma liga com memória e reacção termodinâmica. Computadores, software e ciberespaço são mais um instrumento que os criadores estão a usar nas suas práticas, num culminar da interdisciplinaridade. O diálogo entre as artes alterou-se profundamente, exige-se uma nova estética que reconheça que não há ruptura entre artes e ciência, que o novo artista, na sua prática cibercriativa – http://www.dreamingmethods.com/"Dreaming Methods – regressa ao colectivo do cinema, ou ao espírito dos ateliers medievais.

 

 


 

 

Informações:

Todas os eventos decorrem no Clube Português de Artes e Ideias
Largo Raphael Bordallo Pinheiro nº 29, 2º 1200-369 Lisboa

email: geral@artesideias.com

Conferências: entrada livre

Fóruns podem ser precedidos de workshops sujeitos a inscrição prévia, com vagas limitadas.

Direcção Paulo Gouveia
Programação e coordenação Margarida Vale de Gato, Paulo Raposo, Teresa Almeida

AIA é um projecto apoiado / supported by:

Pavel Smetana
The Oxford Dictionary of Science defines adaptation as “Any change in the structure or functioning of an organism that makes it better suited to its environment.” Is technology a part of this process? Which emerging and future pressure of another adaptation is awaiting us tomorrow?
On one side I'll be presenting projects that have immediate correlation with sciences of space and life, on the other I'll showcase critical practices that reflect on contemporary art world as well as social networking mania. For better or worse, many projects are full of irony and distance towards emerging and future technologies. Artists can either go for technical excellence or turn inwards in order to examine marginalized concepts such as rituals and new type of digital primitivism. It perhaps comes as no surprise that the theme of adaptation provoked, among other things, a great interest of artists in something as direct as death: reaching out to inner domain of personal survival, probing outer space.

José Félix Costa
For speculation:
– All art must be scientific. In as much as the adjective “scientific” implies technology, art is technological. Painting cannot evade the theory of colour, nor music acoustics...
– If we consider that technology is an extension of the body, enabling us to perceive, experience and register, then technology will necessary modify the language of art, even non-contemporary art.
– Art is the language of science, through which scientific concepts are showcased to the public opinion.
– Provocation: Physics is (still) the science that mostly interacts with the arts. The concepts of space and time, the concept of space-time, their natures, are “recipient” of the artistic project’s segmentation. These concepts, corresponding to scientific definitions, are transformed through artistic imagination and thus become the rigging and stage for arts.

Helena Barbas
The model of the artist-engineer incarnated by Leonardo da Vinci has never been confined to the Renaissance. All artists have always employed their ingenuity to explore many contemporary scientific developments, and they even have proposed research directions in the area of the very physical and scientific materials, the media they used to manufacture their works. At present, sculpture uses electrical drills and grinders; employs aluminium, and nitinol – a shape memory alloy with thermodynamic reactions. Computers, software and cyberspace are just another tool that makers are using in their practices, in a culmination of inter-disciplinarity. The dialogue between the arts has changed dramatically; it requires a new aesthetics to recognize that there is no gap, and the two cultures are just one, as well as that the new cyberartist’s practice ("http://www.dreamingmethods.com/"Dreaming Methods) is collective as in cinema, or has returned to the manner of medieval workshops.

Leonel Moura
Technology does not, in itself, characterize any artistic practice, because all art is technological. We may nonetheless distinguish between primitive technologies (the paintbrush) or advanced technologies (the computer).
The artistic illustration of scientific procedures or ideas should not be conceptually included as “intersection between art and science,” since it looks backwards towards the old notion of art as representation. “Illustration,” here, comprises both a formal and a conceptual understanding.
The innovative character – or rather the whole new paradigm – of the most interesting interplay between arts and sciences, resides in a conscious and deliberate detour of scientific knowledge towards artistic creation.
Resorting to scientific knowledge, artists may finally attain complete freedom from the representation of reality, and dedicate themselves to the direct and objective production of new realities – life, either natural or artificial, being first and moremost.